JORGE RODRIGUES SIMÃO

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Globalização ao revés

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“The middleman, a separate and before long a very frequent figure, was the man of the future.”

 

The Wheels of Commerce (Civilization and Capitalism: 15Th-18th Century -Volume 2)

Fernand Braudel

 

Comprar num mercado para vender em outro, com lucro, quando existe maior concorrência em ambos; observar não apenas as alterações ocasionais da procura, mas as mudanças muito maiores e mais frequentes na concorrência e na oferta são condições necessárias na arte de comerciar. A procura tem a capacidade de adquirir de outros provedores, e para a satisfazer é necessário agilidade e decisão rápida, tanto na quantidade como na qualidade de cada espécie de produtos, dadas as circunstâncias próprias dos mercados. É uma espécie de guerra em que os actos comerciais mudam continuamente, e com dificuldade podem ser conduzidos com sucesso, como explica Adam Smith, em “A Riqueza das Nações”.

Numa longa espera na fila da emigração chinesa de entrada em Macau, um simpático e bem apresentado africano, revelou o segredo do seu sucesso como homem de negócios. Possuindo apenas um telemóvel e uma promessa de dinheiro do tio, um nigeriano fez algo que o governo do seu país, que é o mais populoso de África, tem tentado fazer há décadas, que é o de levar electricidade a toda a população. Não era uma questão de tecnologia, pois não é inventor ou engenheiro, e os seus conhecimentos sobre problemas eléctricos onde vivia, nada tinham a ver com fantasias de energia fotovoltaica ou turbinas para aproveitar o “harmatão”, que é um vento quente e seco que sofra na África Ocidental, de Dezembro a Fevereiro, ou quaisquer outras fontes alternativas de energia.

Ao invés a mais de sete mil quilómetros de distância, num país em que não entendia praticamente uma palavra, fez o que é usual nos comerciantes; celebrar um acordo, pelo qual, contratou uma empresa chinesa para fabricar pequenos geradores com a marca do nome do tio, e posteriormente enviou para a Nigéria. Nunca quis ser um comerciante no sector da energia. Foi para Guangzhou, em 2005, com um visto de turista que lhe conferia o direito a permanecer trinta dias. Mas, como a maioria não foi como turista. Foi com mil dólares em notas, e o sonho de ser comerciante.

Teve um começo difícil, pois não conhecia ninguém, nem falava o cantonense. Alugou um quarto num hotel barato, no bairro de Sanyuanli, a três quilómetros da Estação Central dos Caminhos-de-ferro, e mal saía de casa, excepto para comprar comida num restaurante próximo. Quatro meses após essa aventura comercial, com saídas ao exterior para renovação dos vistos, em que ia iludindo os serviços de migração dos países ao redor, transformada numa prática delinquente normal, surgiu a sua primeira grande oportunidade de praticar um acto de comércio global.

Investiu o pouco que tinha num negócio mal aconselhado de comércio de computadores portáteis, perdendo tudo, pelo que teve de fazer algo em atitude de desespero. Tinha reparado que muitos comerciantes africanos iam regularmente a dois centros comerciais, que se tinham especializado em vender roupas com desconto.

Foi a esses centros comerciais, mercados de exportação de Cannan e Tianen, no outro lado da rua, podendo mover-se facilmente e ofereceu os seus serviços a vários comerciantes africanos que se encontravam no local. Se lhe pagasse cada um, uma parte da alimentação e alojamento, e alguns “Kwai”, que na gíria chinesa significa alguns dólares, ajudaria a organizar as suas negociações de comércio. Iniciou a sua actividade então, no mercado de auto peças em Nnewi, uma cidade no Leste da Nigéria.

Nada entendia sobre o comércio de roupa, mas sabia por experiência, que vender e comprar são actividades distintas, e sabia que o lucro viria do aumento entre as duas. Aprendeu com o tempo, um pouco de contabilidade criativa, e que podia trabalhar com um pequeno lucro extra em cada transacção. Atraiu suficientes compradores africanos, alguns dos grandes vendedores de vestuário chinês, que lhe propuseram um novo tipo de remuneração; sempre que os seus clientes da Nigéria comprassem numa das suas lojas, o comerciante pagar-lhe-ia uma comissão.

Passou a ganhar dinheiro de cada uma das partes na transacção. Paulatinamente, a situação foi-se estabilizando e voltou ao negócio que melhor conhecia, a compra e venda de auto-peças e máquinas. Os negócios foram-se tornando mais volumosos, por vezes cada um no montante equivalente a 150 mil dólares. Regularmente, envia navios cheios de contentores para a Nigéria, e em vez de um centavo, recebe 2 por cento do total da transacção dos fabricantes chineses (num negócio no montante total equivalente a 150 mil dólares, são 3 mil dólares) e uma quantia igual do seu cliente nigeriano.

O seu sucesso, permitiu que saísse do hotel em Sanyuanli, que habitualmente ocupava, e actualmente vive num bairro em ascensão não muito longe do Hotel Garden, principal destino na cidade dos comerciantes estrangeiros, e pelos padrões de Guangzhou, pode-se considerar para pessoas da classe média. Em comparação com muitos comerciantes nigerianos, as suas transacções são extremamente pequenas. Está surpreendido por considerarem o negócio que fez em geradores de notável. No seu entender tratou-se apenas de uma oportunidade.

O seu negócio é ir às fábricas buscar os produtos e enviá-los à Nigéria. Apesar da sua modéstia, existe algo de importante acerca dos negócios que efectua, que é um sentido quase nato para o negócio. Poder-se-ia dizer que “cheira” o negócio à distância. Temos a tendência de pensar a globalização como um processo liderado pelo Ocidente, em que as grandes multinacionais terciarizam empregos para países de baixos salários, e criam novos mercados para os seus produtos num mundo em desenvolvimento, refreado pela recessão. As empresas e os seus defensores insistem que a globalização melhora as condições de vida, construindo uma nova classe média e introduz melhores padrões e condições de trabalho, produtos seguros para as regiões que nunca os tiveram anteriormente.

Os críticos afirmam que se trata de um colonialismo económico, permitindo que interesses externos lancem resíduos para as nações agrilhoadas, enquanto as  empresas do Ocidente recebem dinheiro directamente nas suas contas bancárias. Tal como milhares de outros cidadãos de um mundo em crise e desigual, representam uma forma diferente de comerciar. Sem documentação, autorização ou assistência dos seus países, criaram um circuito impulsionador do comércio mundial, não reconhecido pelos Estados e não abençoado pelos economistas. Vendedores ambulantes não licenciados, revendedores de produtos proibidos, são os primeiros actores da globalização de um sistema que sempre existiu e cujas regras têm séculos.

Seguiam, no passado longínquo, os esfarrapados exércitos das “Cruzadas”, constituídos por pelotões amontoados e compactos, mal equipados, que um historiador designou como “percorredores de cidades”, em que nelas se alimentavam, renovavam o vestuário e se rearmavam, porque os reinos e principados donde provinham, não tinham capacidade para combater com semelhante logística. O particular sistema económico que andava associado, não tinha preferências políticas nem religiosas, e os mercadores negociavam com todos sem pudor.

Mais tarde, as redes de traficantes passaram a explorar as montanhas que atravessam os Pirenéus e os Alpes para transportar mercadorias do Norte de África e do Médio Oriente para a Europa e Escandinávia e vice-versa, e muitas das vezes encontravam rotas ao redor dos postos fronteiriços, onde se encontravam os funcionários aduaneiros. Mesmo, quando as cidades pareciam inexpugnáveis, protegidas por anéis de muralhas e paredes como na Itália Renascentista, a área ao redor da porta de entrada na cidade, servia como uma espécie de livre comércio, fora do alcance da jurisdição das autoridades locais.

O historiador do desenvolvimento do moderno capitalismo, Fernand Braudel em “The Wheels of Commerce”, afirma que “ricos ou pobres e mercadores deambulantes, estimulavam e mantinham o comércio numa determinada região”. O fascínio do lucro não declarado, resultante do comércio não licenciado sempre atraiu ao longo dos tempos, grupos duvidosos e de proveniência diversa. Este tipo de comércio obscuro e ilegal tem uma história longa, que enamorou grandes nomes, como o poeta francês Arthur Rimbaud, que desistiu de literatura na década de 1890, e dedicou o resto da sua vida a esta forma de comerciar.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 17.02.2012

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