JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A questão sudanesa

“The government of Sudan maintains that conflict in this region of Darfour is primarily a tribal one, centred around the competition for land between pastoralists and crop farmers in the area.”

Darfur Liberation Front

Uma das piores tragédias sociais a nível mundial, desenrola-se na República do Sudão, mais precisamente em Darfour, situada a 900 quilómetros a Ocidente da capital Cartum, fundada em 1824, por um vice-rei egípcio, e que em tempo passado era conhecido por Núbia, que na língua autóctone significa “País do Ouro”.

Alheia à tragédia a capital sudanesa, continua a viver indiferente à desgraça que acontece numa parte do país, continuando a construir edifícios, as ditas torres inteligentes, a florescer supermercados, e lojas de equipamento electrónico onde os televisores de ecrã LCD, ou seja, constituídos por cristais líquidos e os de plasma, vendem-se como se de água tratasse.

Apesar das imagens que nos entram casa adentro, como a República do Sudão sendo apenas um deserto, e que tem a sua parte de verdade, na morte de imensas pessoas pela fome, contrastando com as cidades que prosperam com a ajuda do sector privado.

Enquanto existir petróleo no Sudão, não será considerado um país em crise, como não é a Venezuela com 80% da população a caminho da pobreza e 40% a viverem no limiar ou abaixo, e tantos outros.

O petróleo transformou a economia do país, e produziu o mais rápido crescimento de África, ou talvez do mundo, que permitiu ao seu regime satânico e belicoso desafiar as pressões internacionais para acabar com a guerra civil em Darfour, na clássica fronteira entre a Núbia e o deserto da Líbia.

Um embargo ordenado pelos Estados Unidos, não permite que muitas empresas americanas e europeias possam operar no país. Em contrapartida, empresas da China, Malásia, Índia, Paquistão, Kuwait, Qatar e dos Emiratos Árabes Unidos, instalam-se em massa.

O investimento directo estrangeiro (FDI) passou de 130 milhões de dólares em 2000, para cerca de 2350 milhões de dólares no ano passado, ou seja, num espaço de cinco anos multiplicou-se quase dezanove vezes.

Por sua vez, os Estados Unidos têm como política apertar o cinto, ou seja, dando pouco espaço de manobra nas relações comerciais do país com o Ocidente, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) criticam o regime.

Desde que os países asiáticos estejam dispostos a fazer comércio com o Sudão, apesar da sua medonha e abominável política de direitos humanos, semelhante à do Malawi, Burkina Faso ou Zimbabué, as sanções americanas pouco efeito têm.

O autocrata Presidente do Sudão, continuamente despreza o Ocidente, culpando o pessoal da ONU, que trabalhava em Darfour, pelo mau trabalho prestado numa guerra, que ceifou, feriu e fez deslocar das suas terras, um total de cerca de 450000 pessoas.

O “slogan” é de que o Sudão, sabe que não precisa dos Estados Unidos. As únicas prejudicadas no entender dos sudaneses, neste clima de desentendimento do Sudão com os Estados Unidos, são as empresas ocidentais, em particular as americanas que perdem oportunidades de negócio neste espantoso apogeu.

Mas, o crescimento de um local, significa irremediavelmente a estagnação de outros locais, e o Sudão não foge à regra, onde a riqueza reparte-se de forma injusta por quase todo o país, onde o rendimento por habitante é de cerca de 650 dólares anuais, não chegando a 1,80 dólar diário.

Pelo contrário, o Produto Interno Bruto, subiu 8,1% em 2005 e, defende o FMI, que apoia um teste monetarista neoclássico sem paralelo no mundo, que atingirá os 12,5% este ano, dado que a extracção de petróleo vai a caminho dos 550000 barris diários.

Muito pouco, quando comparado com a Arábia Saudita ou o Irão, mas mais que suficiente para um país, até há pouco na miséria, e com uma reserva de alguns biliões de dólares americanos.

Os hidrocarbonetos e os terrenos urbanos, são os grandes incentivos económicos, que dão a popularidade ao governo nas cidades. O Presidente do Sudão investiu centenas de milhões de dólares em estradas, pontes, centrais eléctricas, hospitais e escolas.

Um Presidente militar que se apoderou do governo através de um golpe de Estado em 1989, é conjuntamente, com o seu exército os maiores beneficiários do auge económico do Sudão, uma vez que cerca de 75% dos rendimentos petrolíferos são destinados ao orçamento do Ministério da Defesa, o que é explicável num país onde os negros não muçulmanos do Sul passam o tempo a revoltar-se e as tribos de Darfour a resistir.

O embargo comercial imposto pelos Estados Unidos desde 1997, que congelou todos os activos sudaneses em território americano e cuja causa foram os abusos aos direitos humanos na longa guerra Norte e Sul, e actualmente em Darfour, e as suas ligações com o grupo terrorista Al-Qaeda.

Recordemos que Osama bin Laden residiu Cartum durante os anos de 1990. Mas, desde 1999, a descoberta de petróleo começou a produzir uma mudança na economia do país.

Uma pequena equipa de tecnocratas educados no Ocidente e no Egipto, aceitaram um programa de reformas realizado pelo FMI, e cumpre-o ponto por ponto, incluindo a redução de despesas, privatizações, diminuição da inflação e investimentos em infra-estruturas.

São medidas neoclássicas, mas que funcionam na opinião dos funcionários governamentais.

Existem alguns casos extremos, que preocupam a hierarquia religiosa do país. Um deles é um hotel de cinco estrelas, com vinte e quatro andares edificados nas margens do Rio Nilo em Cartum, onde o luxo de toda a espécie transborda, incluindo enormes saunas e bares, alheios a toda a austeridade, num país que, como o Sudão, é célebre desde há séculos pelas suas escolas de teologia sunita.

O Sudão aprendeu a encontrar o seu suporte no Oriente e, devido às exportações petrolíferas, possui uma estabilidade razoável. Enquanto a inflação diminuiu para os 6% anuais, o investimento está a atingir as zonas agrícolas do país.

O Sudão não é apenas o maior país do continente africano, é um dos menos homogéneos da zona, produto de uma história complexa.

Durante milénios na esfera de influência faraónica, seguida da grega e romana, em que metade do Norte do país se islamizou, durante as invasões árabes dos séculos VIII e IX.

Quando o Império Otomano turco, ou os seus senhores feudais começaram a empobrecer no século XIX, a Inglaterra e a França disputaram não apenas o Norte árabe, mas igualmente o Sul negro.

Aplicaram os rendimentos, causa esclarecedora, para que o actual Sudão, anteriormente Sudão Oriental ou anglo-egípcio seja uma combinação de metades sem ligações étnicas, religiosas ou históricas entre si.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 09.11.2006
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

paineliii.jpg