JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A decadência da hegemonia americana

“O mercado do petróleo está distendido até ao limite da ruptura. A última vez que os preços atingiram os níveis actuais, pouco antes da Guerra do Golfo em 1991, havia capacidade de produção excedente no mundo, de modo que havia espaço para enfrentar sérias perturbações da oferta, caso elas surgissem. Desta vez isto não se aplica. Novas descobertas têm sido cada vez mais raras. Os preços do petróleo estão altos e podem subir cada vez mais”.

Paul Krugman

 

Durante anos, em termos de sabedoria convencional, os americanos impulsionaram a economia global. Paradoxo e contradição, dado que o mundo tem financiado as suas despesas e o do seu governo, por via do mega deficit.

Actualmente, nem sequer o Produto Interno Bruto (PIB) tem robustez. Segundo dados federais, o trimestre de Outubro a Dezembro de 2005 foi planeado de forma negativa com apenas 1,1% de crescimento anual.

Para muitos analistas e a maioria do povo americano, foi uma surpresa. Para alguns analistas mais sagazes, nem tanto, apenas mais uma dor de cabeça. No ano transacto dos dois lados do Atlântico falava-se em estagflação de novo género, por referência à terrível mistura de inflação com estagnação que produziria severos danos a curto prazo.

Anteriores à primeira crise petrolífera de 1973-1975, as teorias económicas dominantes negavam que fosse possível esse concerto na economia de um país desenvolvido. Economistas, analistas e bancos centrais no presente, ainda que poucos, são mais cautelosos nas suas apreciações.

Menor poder aquisitivo, crescentes desequilíbrios fiscais e externos e produtos petrolíferos caros fazem temer as perturbações dos anos de 1970. A meio do ano de 2005, começaram a chover advertências sobre a avivada crise petrolífera, que o governo dos Estados Unidos em especial, ignorou.

Não a inventaram Paul Krugman ou John Kenneth Galbraith, nem outros dissidentes, mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) num dos seus “occasional papers”. Apesar das respostas e medidas tomadas, com subidas e descidas iniciadas em Janeiro, o crude custa mais 70% do que há dois anos, a valores reais.

Não é o aumento de 185% de 1973-1975, nem de 158% de 1978-1981. Mas é suficiente para criar o alarme como diz o Presidente da Reserva Federal Americana (FED).

Quer a “Wall Street” como a “City” de Londres, e todos os meios financeiros a elas ligados não albergam grandes receios argumentando que a actual desaceleração do PIB dos Estados Unidos, nada é quando comparado com os ciclones dos anos de 1970, nem com a severa contracção antiinflacionista criada nos anos de 1980 pelo ex-presidente do FED Paul Volcker, personalidade mais ameaçadora que o aposentado Alan Greenspan.

Os anos de 1973-82 passaram por três recessões de economias de países desenvolvidos, inflação anual superior a 10% e desemprego de 6% a 10%.

No presente, os Estados Unidos, apresentam uma inflação base de cerca de 3,3%, um indicador discricionário, não usado nos anos de 1970, que exclui alimentos e combustíveis, mas será de 4,4% se levarmos em conta a situação do comércio a retalho.

Os especialistas mais optimistas da economia não têm todas as soluções ou conseguem prever sem enganos.

A título de exemplo podemos afirmar sem recorrer a grandes teorias e dados que se o PIB dos Estados Unidos não crescer a uma taxa anual de cerca de 4%, a reactivação da economia imaginada por Alan Greenspan não se dará.

Talvez se chegue à conclusão que Alan Greenspan fez mais mal à economia americana nos seus 18 anos à frente do FED do que se possa imaginar.

Abrimos um pouco do véu nos nossos escritos sobre “o legado de Alan Greenspan”. O Reino Unido ainda vivendo tempos de economia próspera apesar dos sinais inflacionistas, a “zona euro” e o Japão a darem sinais de suave recuperação, mas não sendo locomotivas globais.

A China não poderá desempenhar esse papel, a não ser em determinados sectores, porque é uma economia em desenvolvimento e o seu PIB por habitante é diminuto.

Por outro lado, o apressado e imprudente alargamento da União Europeia (UE) é um factor de risco que não se usa extrapolar. Até ao momento, sustentam os seguidores do modelo do Presidente George Bush, que os consumidores americanos preservaram o sistema por via das importações, daí o deficit de 726000 milhões de dólares registado em 2005.

Mas os gastos bélicos no Iraque, não sendo de reconstrução nem de desenvolvimento e o prodigioso deficit na conta corrente anularam em boa parte o factor positivo.

Justamente, esta é a diferença que existe em relação aos anos de 1970, quando o governo americano não possuía estes deficits astronómicos. A mesma publicação do FMI celebra as virtudes do consumidor americano, endividando-se para comprar o que não necessita, favorecendo o mundo Por diversas ocasiões analistas mais avisados chamaram atenção sobre os perigos de deficit sem limites, sendo Alan.

Greenspan e os directores do FED demasiado condescendentes face ao deficit da balança de pagamentos externos, nunca tendo atingido semelhantes proporções.

As suas próprias estatísticas revelam que, durante o último trimestre de 2005, esse deficit avançou até quase 7% do PIB.

Assim, os Estados Unidos devem ter uma dívida de 770000 milhões de dólares este ano.

É claro, que o imparável endividamento americano é mais que suficiente para neutralizar os efeitos estimulantes da despesa pública privada, quer na forma de importações e deslocações, gastos no exterior e internamente, sobre a economia mundial.

A locomotiva americana, na realidade, puxa cada ano menos vagões. Os Professores Joseph Stiglitz (Prémio Nobel da Economia de 2001) e Paul Krugman (eterno candidato ao galardão) continuam cépticos acerca da economia avisando que não esperem um ano sem sobressaltos.

Ambos prognosticam incertezas mundiais, associadas à ruína política do Presidente George W. Bush.

Independente do grau de crescimento internacional, a sua distribuição propenderá a ser ainda menos equitativa do que nos primeiros cinco anos deste século XXI.

A África subsaariana e parte da América do Sul continuarão a degradar-se, opinião compartilhada pelo Presidente do Banco Mundial, o que explica que essa entidade e outras organizações multilaterais menos conservadoras como a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), começam a concordar com o uso de métodos não convencionais para reassegurar rendimentos e enfrentar a pobreza estrutural.

Por exemplo, os planos sociais como os da Argentina, Brasil (em que o Presidente Lula da Silva há dias comprometeu-se com a construção de habitação social no valor de 472 milhões de dólares), Venezuela, Índia, etc.

À margem, o consumidor americano a tornar-se hesitante. Não parece muito disposto a endividar-se com as actuais taxas de juro, que se situam a 4,75% (dez anos) e 4,74% (trinta anos) que são máximos nestes últimos anos.

Comparativamente, a LIBOR (London InterBank Offered Rate) excedia os 5% por ano no prazo de seis meses. Os três valores reflectem a retrocesso de preços para títulos de renda fixa; mas não o provocam, como imaginam os meios nacionais.

Tanto assim é que, há poucos dias os títulos da dívida pública da Argentina atingiram novos máximos. Paul Krugman assinalou que durante 2005, os americanos gastaram ou endividaram-se a um ritmo diário de 2000 milhões de dólares. Este ano, vai ser muito difícil manter essa dilapidação, uma vez que o crédito e dinheiro estão cada vez mais caros.

Na verdade, no momento os tipos de juros a longo prazo reagem ao ajuste de taxas básicas efectuado desde 2004 pelo FED elevando-os de 1% a 4,75% anuais.

Ambos os economistas, e o Presidente do FED defendem que os preços petrolíferos se manterão acima de 55 a 60 dólares por barril. Sempre que o nível de preços do barril desce, algo acontece que os faz subir novamente.

No que diz respeito às novas locomotivas em desenvolvimento como a China e a Índia, a sua capacidade de movimento fica limitada a certos sectores e não é global. O entusiasmo com os países do grupo BRIC, ou seja, o Brasil, Rússia, Índia e a China, devem-se ao facto de serem economias muito diversas entre si.

Por exemplo, a Rússia é exportadora líquida de combustíveis fósseis, ao passo que a China e a Índia são importadoras comparáveis aos Estados Unidos. O caso indiano, de passagem, pôs em evidência a decadência da hegemonia americana em que o Presidente Bush teve que fazer concessões em matéria nuclear sem as ter obtido o Paquistão.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 09.03.2006
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