JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A escravidão laboral na China

“China has tens of millions of migrant workers. They leave their rural homes in search of work, but often have to endure harsh conditions, bad treatment and low pay. There is little they can do about their lot, particularly when, as in this case, factory owners are protected by powerful local officials.”

Michael Bristow

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Na República Popular da China só para a multinacional americana de fast food - Mac Donald's, trabalham 70 milhões de jovens mulheres com um horário diário de trabalho que varia entre as 14 e as 18 horas. Têm 15 minutos para as suas refeições e 4 horas para dormir em beliches situados nas fábricas onde operam. Ao anoitecer, as trabalhadoras são registadas para comprovar que nada roubaram. Com as portas de metal e barrotes nas janelas, estas fábricas parecem-se mais com quartel militar. É uma das formas designadas pelos chineses de competitividade. Fabricar, montar e empacotar num ciclo sem fim. Numa das fábricas 600, mulheres jovens trabalham como robôs, sem levantar os olhos, dar um suspiro ou falarem entre si. Todas vieram do campo tentando sair da pobreza e estão, colocando e empacotando bonecos de plástico, com durações de trabalho que o mundo civilizado há muito esqueceu, permissões reduzidas para sair ao serviço e quatro horas para sonhar que na realidade não estão a dormir em beliches no último piso da fábrica. Uma sirene ruidosa trás de novo à realidade e apregoa o novo dia, muito antes de amanhecer. As empregadas levantam-se da cama, vestem as batas e agrupam-se em linha antes de correr pelas escadas para seus postos de trabalho. A gigantesca abóbada que cobre o local de trabalho está situada nos arredores de Shenzhen, a cidade mais moderna do Sul de China e limítrofe a Hong Kong pelos “Novos Territórios”, rodeada de outras fábricas idênticas, de maior ou menor envergadura, algumas com mais de 5000 empregadas. Na China são conhecidas como “dagongmei” ou raparigas trabalhadoras. São jovens adolescentes dispostas a produzir sem descanso por um salário de 1500 yuans por mês ou seja cerca de 135 euros por mês, ao qual é descontado a comida e o que denominam de despesas de alojamento. As centenas de milhares de fábricas de mão-de-obra barata distribuídas por todo o país são a outra face do “Made in China” que invadiu as lojas de todo mundo, desde os artigos das lojas de todos os produtos a 5 ou 10 euros até às máquinas de lavar roupa, televisores e roupa de marca. Para as “dagongmei”, que fazem sorrir de satisfação o mundo ocidental no seu consumo desenfreado e paranóico, estas fábricas são a sua casa, a sua família e a sua cela. Fábricas em que os supervisores se encarregam de que não descansem e de que a produção nunca diminua. Cada trabalhadora é registada ao terminar o período de trabalho para comprovar que não leva escondida nenhuma unidade dos brinquedos, chaveiros, bonés ou qualquer outra unidade que estão a produzir dentro da infinidade de produtos fabricados a preço de saldo. Se violarem as regras internas ou não apresentarem um rendimento dentro do nível exigido, um sistema de penalizações permite aos chefes reduzir o salário ou os oito dias de férias anuais. O slogan é de “Vigiar senão desleixam-se”, que os sorridentes patrões chineses apregoam. Milhares de empresas americanas e europeias, incluindo portuguesas subcontratam fábricas chinesas similares a esta para competirem os seus produtos no Ocidente ao melhor preço. Se assim não fosse, não seria rentável e não nos descolaríamos a outro país, como reconhecem muitos empresários americanos e europeus, entre eles um conhecido americano que é proprietário de cerca de 40 fábricas no Delta do Rio das Pérolas, onde trabalham cerca de seis milhões de “dagongmei”, mais que a população activa de Portugal que segundo as estatísticas de 2004 era de cerca de 5,5 milhões de pessoas. Não representam a décima parte das existentes em todo o país, que se calculam serem de 70 milhões de jovens mulheres. Realidade desconhecida no Ocidente, que a fomenta. Os dormitórios destas jovens adolescentes situados em geral nos últimos pisos das fábricas, tem compartimentos onde dormem até 15 jovens. Nessas horríveis condições de salubridade piores que celas de prisão, não é preciso ter um coeficiente de inteligência muito elevado para saber que a maioria sofre de anemia, dores menstruais ou problemas de visão, nas que têm por trabalho a montagem de diminutos produtos a olho nu e sem descanso. Outras adoecem intoxicadas pelo contacto com produtos químicos utilizados no trabalho ou simplesmente desmaiam de cansaço depois de intermináveis períodos de trabalho em que lhe é fornecido um simples prato de arroz ao dia. São negados todos os direitos, não tendo autorização de residência nas denominadas Zonas Económicas Especiais (ZEE) mesmo depois de 10 anos de trabalho no mesmo local. As lojas ou os médicos das cidades onde estão situadas as suas fábricas cobram mais do que ao resto dos vizinhos pelos produtos ou serviços. O periódico de Hong Kong “South China Morning Post”, referiu em Agosto, que os brinquedos que a multinacional de hambúrgueres Mc Donalds ofereciam nas suas promoções no país asiático estavam a ser fabricados na China por jovens adolescentes com idades de 12 a 17 anos. As menores trabalhavam sem descanso das sete da manhã às onze da noite, todos os dias da semana, sem um único dia de descanso. Em certas ocasiões a duração do tempo de trabalho prolongava-se até às duas da manhã por um salário de cerca de 2 euros por dia e um compartimento de 25 metros quadrados onde se encontram instaladas um total de 15 jovens. O Comité Industrial Cristão de Hong Kong, uma Organização Não Governamental que se dedica a resgatar os menores que trabalham em semelhantes condições, enviou uma equipe de pesquisadores a uma fábrica subcontratada por uma cadeia de restaurantes americana. As histórias relatadas foram idênticas aos de uma criança de 12 anos que disse: “Os meus pais não queriam que viesse. Chorei e implorei para que me deixassem, porque queria ver o mundo. A minha família tem outros três filhos, mas todos vão ao colégio. Quero poupar dinheiro para que os meus pais possam sobreviver”. É um círculo quase indestrutível. Por uma parte, as multinacionais americanas ou europeias não têm que responder pelas condições praticadas nas suas fábricas em países do Terceiro Mundo e poupam custos laborais. Por outro lado, os governos locais não estão interessados em assustar o investimento estrangeiro fazendo demasiadas perguntas. E as fábricas multiplicam-se. Shenzhen era nos anos de 1980 uma aldeia pobre como muitas outras na Província de Cantão, tendo apenas a vantagem de fazer fronteira com Hong Kong, assim como Zhuhai com Macau. Shenzhen foi a primeira ZEE a ser escolhidas das cinco criadas pelo governo central. Antes de comprar pense e medite neste texto que deixamos à sua consideração e consciência. Os desprovidos desta última agradece-se que não percam tempo a ler.

Jorge Rodrigues Simão, 27.11.2007 ST
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