JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT UR, JUDICES SIUNT

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As consequências do Holocausto

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“Não conheço ninguém que não tenha ficado perplexo com a ampla vitória do Hamas. Há quem diga que próprio grupo se surpreendeu com o resultado”

Condoleezza Rice

 

O Médio Oriente vive um dos seus mais conturbados momentos, depois da vitória do Movimento Islâmico Hamas no dia 22 do passado mês.

Com esta inesperada vitória é de recear por Israel e pelo futuro dos judeus, sejam ou não israelitas, dada a inquietante fraqueza da liberdade que se vive. Tempo houve que, ao concluir a obra, caia o pano e em sincronia com a descida da cortina o público irrompia em aplausos mais ou menos efusivos.

Actualmente, quando termina a actuação da peça de teatro as luzes do palco apagam-se e, por vezes, soa uma música que faz de epílogo. Medeiam dessa forma uns segundos, para que o espectador tenha um tempo para pensar se aplaude a representação, e especialmente, para calcular a ênfase com que deve fazê-lo.

Para o nosso género e convicção teatral e com a certeza de que o teatro faz parte da vida, seja na forma de peças infantis que não perecem e que se transmitem de umas décadas a outras com uma beleza juvenil ou com algumas mais contingentes e aliciadoras, sempre aplaudimos no término da obra, inclusive quando esta, por libreto ou por interpretação, resultasse frustrada no seu propósito.

O esforço do actor sobre o palco e a sua entrega quando a sala repleta de poltronas sofre de espaços com falta de público, são emocionantes como o pedir da gorjeta tornando-se demasiado mesquinho, mesmo que a apresentação não vá além de um simples passar de tempo numa representação incaracterística.

A solidariedade do público no teatro com o género artístico, muito diferente do que se dá com os melómanos ou os toureiros e que não se deve a outra coisa que não seja a permanente sensação agónica sobre o mesmo género teatral que com tanta falta de compreensão é tratado, pese os seus muitos méritos e esforços.

Esta situação do Médio Oriente traz-me à memória a convertida peça Conversa de Sábado, derrocada trágica, descrita pelo judeu italiano Primo Levi no seu livro É Isto um Homem? Escrito em 1947. No tempo morto que medeia entre o final da representação e a reacção do público, pela primeira vez pensámos seriamente se era possível moralmente aplaudir o espectáculo que acabávamos de contemplar.

Decidimos a uma velocidade mental vertiginosa, que essa interpretação de um Primo Levi atormentado pela memória das suas desgraças no campo de concentração de Auschwitz merecia ser recompensada apesar da tropelia que, em termos éticos e cívicos, acabava de ser realizada no palco.

Trata-se de uma conversa teatralizada entre o químico e escritor judeu de Turim Primo Levi nascido em 1919 e falecido em 1987 e Ferdinando Camon, novelista, ensaísta e poeta católico italiano que durante hora e meia entrevistou o italiano, enclausurado pelos nazis em Auschwitz, na essência das suas sensações no inferno da maldade e da desumanidade.

Num espaço cénico soberbo de uma tela em que as imagens do regime de Hitler e do Holocausto vêm selar as palavras, afligiram um Primo Levi principal, sem solução de continuidade narrativa, num atentado contra as técnicas de ritmo teatral, umas palavras do protagonista reticente, ligeiramente críticas com a política do Estado de Israel, cujo Governo era liderado em 1987 por Menahem Beguin, começando por projectar as terríveis imagens das cenas sem qualquer espécie de piedade da repressão de soldados israelitas sobre as defesas calculadas dos palestinianos.

A mensagem brutal e o sobressalto que recebe o espectador por estar totalmente entregue ao drama do Primo Levi e da Shoa querendo delimitar e até negar os novos fascistas desde integristas às diversas esquerdas intelectuais e populistas é de que Conversa com Primo Levi converte-se numa espécie de alegação com a vítima de antes.

Emergindo com aparência inócua que, na realidade inicia a satanização do Estado de Israel, espelho da Alemanha Nazi, no qual as vítimas se converteram em verdugos. Esta vilania teatral não é importante em si mesma, mas sim pelo seu significado, pelo seu valor sintomático de uma forte corrente de opinião politicamente correcta, segundo a qual, o Estado de Israel é um corpo estranho no Médio Oriente e que, poderia ter alguma razão o Presidente do Irão quando deduz que devem ser determinados Estados Europeus como a Áustria e Alemanha que têm a responsabilidade da existência do novo Israel afastado que se encontra da maioria do povo a que pertencia antes do Holocausto.

Se o Shoa existir, os intelectuais progressistas que secundam ao sátrapa persa, são os que deram as boas vindas aos descendentes daquelas improváveis vítimas.

A vaidade dessa enorme impostura centenária plasmada numa das páginas mais indignas de quantas tem sido escritas que são Os Protocolos dos Sábios do Sião. A mentira entranhou-se nas consciências com uma subtileza verdadeiramente extraordinária.

Um julgamento como o de Nuremberga pode ser considerado de aberração legal, mas pode-se afirmar sem contestação que uma parte importante da descrição canónica da deportação e morte dos judeus sob o regime nazi tem sido tratada na forma de mito, usado actualmente para preservar a existência de uma empresa colonial dotada de uma ideologia religiosa monoteísta e místico-messiânica.

O desapossamento por parte de Israel da Palestina árabe para fazer chantagem financeira à Alemanha e a outros Estados Europeus e à própria comunidade judaica dos Estados Unidos. A Conversa com Primo Levi não é um trabalho teatral, por consequência, inocente; muito menos inócuo.

Debaixo da aparência de reivindicar a memória das vítimas do Holocausto separadas do Estado de Israel que é condenado de forma dura face à manipulação das palavras de um judeu italiano que padeceu as atrocidades do campo de concentração de Auschwitz.

Ainda sendo o judeu e o israelita duas entidades conceptuais distintas, não são separáveis porque se enraízam na mesma origem trágica e extraem do Grande Extermínio uma legitimidade plena, radical e absoluta de que a Humanidade tem de reconhecer, na mesma medida que os líderes de Israel têm de praticar a democracia inclusive no espaço hostil de uns inimigos inquebrantáveis que lhes querem endossar a responsabilidade da sua frustração histórica.

No momento em que o Movimento Islâmico Hamas ganhou as eleições e por consequência o poder na Palestina e os seus líderes se conjuram para hostilizar pelos séculos dos séculos o Estado de Israel, é intolerável em termos políticos democráticos que uma Conversa com o Primo Levi se transforme numa verdade inquestionável de encontro ao país da mãe de muitas das vítimas do Shoa, das suas crianças e das gerações futuras.

Jorge Rodrigues Simão, “HojeMacau”, 03.02.2006
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De modo semelhante, a paciência deve crescer em relação às grandes ofensas; tais injúrias não poderão afetar a tua mente".

Leonardo da Vinci

 

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Se você não tiver sua vida, você não tem nada. Por isso até os políticos devem achar um rastafari."

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"A realidade é uma ilusão, embora bastante persistente."

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