JORGE RODRIGUES SIMÃO

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Entrada Perspectivas A China no ano do dragão

A China no ano do dragão

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dragon 

 “He who knows others is learned, he who knows himself is wise”.

Lao-tse

Muitos estão familiarizados com a astrologia ocidental. Podemos ler diariamente, nos jornais e revistas as previsões fundamentadas no Sol e nos signos ascendentes. No entanto, existe outra forma de astrologia conhecida como chinesa ou oriental. A astrologia chinesa é apoiada em doze caracteres arquetípicos representados, por cada um dos doze signos de animais simbólicos. A astrologia oriental difere da ocidental mais popularizada. Embora este sistema lunar utilize fórmulas matemáticas fixas, não se pode considerar uma ciência da previsão, mas sim uma arte interpretativa.

A astrologia chinesa é construída com alicerce em princípios, ordem e nas leis espirituais da sincronicidade ou teoria das "coincidências significativas". É a viagem do espírito através da dimensão física. Os astrólogos chineses acreditam que determinam as características da nossa personalidade e que definem os propósitos da nossa existência no presente.

Verdadeiramente, o nosso “carácter” reflecte a intenção do nosso espírito. Servindo-se de 5000 anos de observações práticas, a astrologia chinesa revela os atributos, forças motrizes e as possibilidades que o ano do nosso nascimento nos oferece. Ao longo dos séculos, multidões mergulharam nos mistérios que se encontram por detrás das suas personalidades. É um sistema atemporal tão relevante no presente como era há muitos séculos atrás. Os chineses falam de um "dom natural" ou "ser interior."

Existem duas faces que compõem a nossa personalidade. O primeiro é “xian tian”, ou seja o nosso original "temperamento." Estes são os atributos espirituais pelos quais nascemos com o tipo de personalidade que temos. O segundo é “hou tian”, ou o nosso “carácter” adquirido, que é determinado pelas nossas escolhas e comportamentos. O que é o "temperamento", e que relação tem o "carácter" na formação da personalidade? O “temperamentos” são as nossas inclinações, tendências e predisposições. O “carácter” é um conjunto de hábitos e comportamentos. O “temperamento” somado ao “carácter” define a personalidade.

Traços de personalidade (formas de pensar, perceber e reagir), devem ser relativamente estáveis ao longo do tempo. Confúcio afirmou que para conhecer o carácter de um homem, era ver o que fazia, assinalar as suas razões e examinar em que coisas descansava. O zodíaco oriental é talvez o mais conhecido e antigo sistema de horóscopo do mundo. Escritos antigos foram datados, no quarto milénio a.C., muitos dos quais têm sido bem preservados e podem ser encontrados nos mosteiros do Tibete, China e sudeste da Ásia. Na China antiga, os mestres espirituais da época eram responsáveis por manter a estabilidade e o bem-estar da população. Após muitos séculos de registos sazonais, agricultura, astronomia e ciclos físicos, as teorias sobre a natureza humana também começaram a desenvolver-se e a aperfeiçoar-se.

O dragão ocupa a quinta posição no zodíaco chinês. É o mistério, vitalidade e universo. É o signo com o maior domínio e a influência mais pujante. É uma criatura mítica, e o signo da boa sorte e da saúde. É o mais poderoso dos signos, capaz de resistir às “imprevisibilidades” e inspira sonhos utópicos e realizações espectaculares, entre muitas outras características. O “Grande Timoneiro” da abertura económica da China, Deng Xiao Ping, era nascido no ano do dragão.

O mundo não sonhava com o desenvolvimento da China desde 1978. As atenções eram canalizadas primeiras para a Alemanha e depois para o Japão. A “Primeira Revolução Chinesa”, que decorreu entre 10 de Outubro de 1911 e 12 de Fevereiro de 1912, data da abdicação do último imperador Puyi, que inspirou o conhecido filme “O Último Imperador”, dirigido por Bernardo Bertolucci, teve como consequência o derrube da Dinastia Qing e o estabelecimento da República da China.

Nesse passado ano de 1978, a China saía da Revolução Cultural, inacreditável génese da grande mudança implementada sem que muitos se dessem conta, especialmente na então vizinha ex-União Soviética. Os japoneses, ao invés, abarrotados de dinheiro, ainda que não tanto como os chineses do presente, dedicavam-se a comprar símbolos do Ocidente como por exemplo o “Rockefeller Center” ou a estudar nas universidades americanas.

Nesse momento, os chineses iniciavam uma vasta reforma agrária. O que se comemorou há alguns meses, mais precisamente a 10 de Outubro de 2011, foi a essa revolução do 10 de Outubro de 1911, que marcou o fim da dinastia Manchu, chefiada pelo Dr. Sun Yat-Sen, fundador do “Kuomintang” (Partido Nacionalista) em 1905, em Hong Kong, e primeiro presidente das “Províncias Unidas da China”. Entretanto, a revolução industrial “Meiji” com início em 1873, converteria o Japão na única economia não ocidental que figurava entre as potências mundiais no começo do século XX.

Nesses tempos, os seus economistas desenvolveram uma “teoria da modernização” muito singular, que consistia em estudar as forças que permitiriam a um país como o Japão, transformar-se em actor proactivo no palco mundial. O Japão era um exemplo dinâmico, ao invés da China que era o da passividade. À diferença da Índia, o sudeste asiático com excepção da Tailândia, Oriente e quase toda África, a China não foi colonizada no sentido estrito do termo.

O Dr. Sun Yat-Sen, definiu o império Manchu, como “multi-colónia”, sem uma potência colonial directa tal como a Indonésia, cujo país colonizador foi a Holanda; a Indochina Ocidental, actual Birmânia, que era a Inglaterra; a Indochina Oriental, que era a França e as Filipinas que eram os Estados Unidos. Em rigor, todas as potências imperialistas, o Japão em particular (Taiwan, Coreia e Manchúria de 1895 a 1932), exerciam faculdades de exploração colonial em toda a zona costeira da China.

Enquanto o mundo mudava velozmente, a corte da imperatriz viúva rebaixava-se, e nem sequer podia dominar os senhores da guerra, que proliferavam desde metade do século XIX. Em significativo contraste com o Japão, a China recusava todo o tipo de modernização e sofria toda a série de desfeitas. No lapso de tempo de trinta e oito anos, de 1911 a 1949, invasões japonesas e russas, guerras civis contínuas e corrupção endémica, entre muitas outras situações, castigaram a China. Entre 1949 e 1977, sob a liderança do Presidente Mao Tsé-Tung, o país readquiriu a soberania e o controlo do poder, mas ficou parcialmente isolado de Ocidente.

A “Segunda Revolução”, a partir de 1978, alterou drasticamente a situação pré-existente e, a China entra no ano do “Dragão da Água” ostentando o segundo PIB mundial. No novo ano do “Dragão”, que começa dia 23 e termina no dia 9 de Fevereiro de 2013, deve a China considerar três sérios riscos que passam pelos cereais, petróleo e sector financeiro. Apesar de ser a economia mais populosa do mundo e continuar próspera, enquanto os Estados Unidos e União Europeia (UE) enfrentam graves crises de endividamento, é aconselhável aplicar o princípio de que é melhor prevenir que curar.

Os dados económicos continuam a revelar sinais positivos de desenvolvimento e, por tal motivo, quem toma decisões ou analisa a economia chinesa faz previsões a curto e a médio prazo que podem não ser as mais positivas, e para que tal não aconteça com excepção dos naturais imponderáveis, é comum que se mitiguem desde logo, certos potenciais problemas. A China caminha para uma perigosa escassez de grãos e além de sofrer de pouca terra arável por habitante, paralelamente, pela forma como acelera a industrialização e a urbanização, os custos laborais aumentam a um ritmo sustentado. Ambos componentes são transferidos de seguida aos preços agrícolas, em particular aos dos cereais.

A população consome grãos em grandes quantidades, mas também necessita de investimentos para a produção de outros produtos para suprir diferentes carências alimentares. Em conjunto, estes factores conduzem a um “perfeito tufão” que, por sua vez, faz aumentar a procura de cereais. A crescente necessidade de grãos é um problema mundial e na China, onde as terras destinadas ao cultivo de cereais representam menos de um terço das suas terras aráveis, basta uma má colheita, para desencadear uma escassez geral de alimentos. A frequência e a severidade dos desastres naturais na China e outros países, pode fazer que a produção mundial de cereais diminua, o que traria graves ameaças à segurança alimentar, riscos de fome e inflação de preços.

O segundo risco tem a ver com a falta global de petróleo e gás que cria fatalmente efeitos negativos ao desenvolvimento da China. Os riscos associados aos “crudes” reflectem a relativa concentração geográfica da oferta. Os hidrocarbonetos reagem de forma imediata às alterações políticas e económicas. A recessão nos Estados Unidos e na UE depreciaram os preços petrolíferos. Todavia, pequenas recuperações podem provocar uma veloz reacção nos valores e uma vez que a China depende do exterior para satisfazer as suas necessidades de combustíveis fósseis, qualquer aumento significativo pode ser devastador para a economia.

No contexto actual, a China deve estar preparada para largas flutuações, o que implicaria a criação de reservas de “crudes” equivalentes a pelos menos entre três a seis meses de consumo, mas deve também diversificar factores de risco, assinando contratos a longo prazo com países fornecedores, além de terem de começar, urgentemente, a explorar fontes de energia não convencionais. As últimas três décadas tem sido marcadas por um sustentado aumento nos meios de pagamentos, em particular M-1. Na segunda metade do passado ano, representavam cerca de 10,5 milhões de milhões de dólares, ou seja o dobro do seu PIB e superior ao M-1 dos Estados Unidos.

Essa excessiva circulação pode trazer outros riscos à economia, porque sem opções de investimento praticáveis podem aparecer borbulhas de preços, e determinados activos podem subir mais do que o considerado conveniente. Sabemos o que aconteceu na crise imobiliária americana de 2006 a 2008. Ao atingir preços insustentáveis, a borbulha rebentou e conduziu a uma crise de liquidez na economia. A China deve por conseguinte, reformular a sua política monetária a fim de reduzir o excesso de liquidez, devendo ser mais rigorosa na supervisão e vigilância do sistema financeiro. O ano novo do “Dragão” seria perfeito para a UE e talvez para a China, se inspirasse os dirigentes chineses a fazer que os excessos de liquidez do sistema fossem aplicados nos resgates europeus.

Kung Hei Fat Choi. Feliz ano novo, sob o signo do Dragão.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 20.01.2012

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