JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

(1) Educação e psicologia

Psicologia da Educação

Tokuhama

Que tipo de homem?

 A educação não é possível sem que se ofereça ao espírito uma imagem do homem tal como deve ser.

 

Joeger

 

Os pais e os educadores nas suas intervenções educativas esperam sempre uma determinada reacção por parte do educando, o que significa, de forma mais ou menos explícita, que possuem um certo conhecimento sobre os motivos que fazem mover o ser humano.

Tal conhecimento é produto quase sempre, da experiência pessoal, da intuição ou do costume transmitido pela tradição. Mas, não podemos deixar a educação nas mãos do improvisado, torna-se necessário que os dados científicos sejam apoio e confirmação da experiência e intuição pessoais; que a educação de crianças e adolescentes tenha em conta os progressos das ciências humanas.

As diferentes interpretações que a psicologia oferece sobre a complexa estrutura do ser humano, ou seja, as chamadas teorias da personalidade, são outras tantas opções que servem para formar a visão que do homem se formará o educador. Muitos são os que consideram que essas estruturas são um produto exclusivo da herança e do ambiente, mas que nos conduzirá a uma interpretação materialista e fatalista do processo educativo, pelo que se deve optar pelas teorias que tenham em conta a total dimensão da pessoa que são:

 

1)    A dimensão psicobiológica, constituída pela herança biogenética, que é a principal responsável pela constituição psicossomática, do carácter e das tendências naturais do individuo.

2)    A dimensão sociocultural, que se encontra conformada por todos os aspectos do ambiente (físico e social, sobretudo o trinómio família-escola-sociedade) que modelam o ser originário do indivíduo.

O homem não é só produto da herança, mas também da sociedade com a sua dinâmica e estruturas. A herança coloca limites às nossas possibilidades e o meio ambiente opera o restante. Esta é uma das funções elementares da educação; a modelação social dos indivíduos.

3)    A dimensão espiritual, no qual o individuo não é um ser inerte, nem uma marionete da cultura. Tem capacidade para decidir a sua conduta, livre e de forma criativa. É fácil esquecer que o protagonista da educação é o educando.

 

Ainda que sejam muitas as teorias que reúnam estes requisitos, deve-se optar por uma, a de Carl Rogers, porque cremos que a sua interpretação é a mais idónea como base para uma acção educativa respeitosa da dignidade do educando. Recolhemos em síntese breve alguns aspectos fundamentais da sua teoria. Quando nos encontramos perante a conduta de outra pessoa, podemos adoptar dois pontos de vista diferentes:

 

1.Considerar a conduta a partir da óptica de um observador exterior.

2.Considerar como é a conduta para o agente, ou seja, que significado tem o comportamento para a pessoa observada.

 

Segundo Carl Rogers, o melhor ponto de observação para compreender uma pessoa é colocar-se a partir do pensamento do sujeito, o que traduzido pedagogicamente, quer dizer que será impossível compreender a criança ou adolescente, se não nos esforçarmos por ver as coisas, como ele as vê.

 

Carl Rogers formulou as seguintes proposições fundamentais sobre a pessoa:

 

1.    Cada indivíduo desenvolveu-se num mundo de experiências que se encontra em constante alteração e cujo centro é a mesma pessoa. A conduta da criança ou adolescente, está em função da realidade tal como ela a vê, o que não quer dizer que o problema para ela não o deixará de ser, ainda que, objectivamente, o adulto não o considere como tal.

2.    O ser humano tem a capacidade, pelo menos latente de se compreender a si mesmo. A imagem que a criança ou o adolescente forma de si depende da apreciação dos pais e educadores. Aprenderá a estimar-se, ou pelo contrário considerar-se-á um inútil, consoante a estima que tenha recebido.

3.    O orgânico reage face à realidade segundo as suas experiências e a sua forma de ver e sentir as coisas. Mais que julgar a criança ou adolescente pelas suas reacções, devemos tentar “ver com ele” e não avaliar por referência aos nossos modelos adultos.

4.    O orgânico reage como um todo harmónico face à realidade, uma vez que no ser humano não se dão reacções unilaterais, independentes e afastadas. Compreender a criança ou adolescente significa compreender o seu mundo na unidade das suas relações múltiplas.

5.    O conceito de “SIM” influi no modo de perceber a realidade e especialmente, no de seleccionar as próprias experiências. Assim, por exemplo, a criança ou adolescente que se considera bem dotado fisicamente, pensará ter capacidades para triunfar no mundo do desporto.

6.    A conduta é uma intenção do orgânico para satisfazer as necessidades profundas, tal como as entende e sente no momento presente. Existem necessidades básicas que devem ser satisfeitas na vida da criança ou adolescente como o afecto e estima.

7.    O melhor ponto de partida para compreender a conduta do indivíduo é situar-se no seu ângulo de visão interior. Essa facilidade para se “meter na pele” do outro é o que constitui a empatia, ou seja, compreensão e aceitação incondicional do outro. Qualidade essencial para todo o educador.

8.    O ser humano tem a capacidade, pelo menos disfarçada, de resolver os seus problemas de forma a sentir-se satisfeito consigo mesmo. Fazem, pois mal, os educadores que pretendem afastar da criança ou adolescente todas as dificuldades e resolver todos os conflitos. Não façam pais e educadores, o que é capaz de fazer a criança ou o adolescente.

9.    O conjunto de características que o individúo desejaria possuir, constitui o “EU-IDEAL”. Este modelo interior adquire a criança ou o adolescente imitando os seus pais ou outras pessoas do seu interesse. A moralidade do educador é iniludível. Séneca recorda-nos “Maiores homens formou Sócrates com os seus hábitos do que com as suas lições”.

10.   A capacidade que tem o ser humano de tomar consciência da sua própria experiência, sem a negar ou deformar torna-o apto para exercer a sua capacidade de opção. A criança ou o adolescente possui uma capacidade radical para dirigir a sua conduta. Não desconfiemos da sua liberdade.

 

Ainda que a intenção de Carl Rogers seja terapêutica, as suas orientações são perfeitamente válidas para obter educativamente o pleno desenvolvimento do educando.

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