Albert Camus
Os peruanos deram uma segunda oportunidade ao ex presidente social-democrata entre 1985 e 1990, Alan Garcia. Confirmam-se todas as previsões, incluída a chamada tese do mal menor, depois de se conhecer o resultado da segunda volta das eleições do dia 4, que teve uma participação superior a 88%, precedida dos contínuos confrontos com o seu rival, o nacionalista Ollanta Humala. Alan Garcia ocupará o denominado “Cadeirão de Pizarro” a 28 de Julho, substituindo o Presidente Alejandro Toledo.
Os resultados eleitorais confirmaram as sondagens, tendo o Presidente eleito Alan Garcia, vencido a segunda volta das eleições presidenciais peruanas como candidato pela Aliança Popular Revolucionária Americana ou Partido Aprista Peruano (APRA), obtendo 55% dos votos face aos 44,54% do seu rival da União Pelo Peru (UPP), Ollanta Humala que venceu a primeira volta das eleições de 9 de Abril com 30,6% contra os 24,3% do Presidente eleito. Pela segunda vez depois de 16 anos, foi de novo eleito Presidente do Peru, e os muros gelados do Palácio de Pizarro ainda conservam as más recordações deste inquilino que em cinco anos, quase destruiu o Peru e a si. O país nesse período bateu os recordes do impossível ultrapassando a taxa de 7500% de inflação anual, uma descida do PIB de 20%, com umas sóbrias reservas que não atingiam 1000 milhões de dólares e 55% da população na pobreza.
O novo mapa político da América do Sul começa a desenhar-se após estas eleições no Peru. Os dois candidatos que disputaram a Presidência representavam dois modelos diferentes de entendimento do país e do continente. Alan Garcia, favorito da APRA de origem social-democrata, de raça inca, com voo próprio e passado político vergonhoso, colocou um pé na porta da sua antiga casa decidido ainda que não o reconheça, a liderar um bloco capaz de enfrentar Hugo Chaves. No pólo oposto, o ex-tenente coronel nacionalista Humala via-se como um refém do dirigente venezuelano ou uma peça mais do dominó montado por Cuba, com a Venezuela e a Bolívia, como última aquisição
Mais de dezasseis milhões de peruanos compareceram às urnas com uma sobrecarrega inesperada. A responsabilidade de eleger, entre o mal menor, um sucessor de Alejandro Toledo para os próximos cinco anos acumulando um peso adicional, o do seu voto poder decidir a forma do desenho do mapa político do Continente sul-americano. Se ganhasse Alan Garcia o Peru continuaria a exercer a sua soberania integrado na economia global. Se ganhasse Humala, que propunha uma errática refundação da República alinharia o Peru a um eixo ideológico e programático perigoso. O Presidente eleito fez das intempestivas intervenções de Hugo Chaves, que o apelidou de ladrão, palhaço, selvagem, etc., durante a campanha eleitoral uma fonte para explorar, retirando proveito para converter os ataques pessoais em ofensas contra o Peru.
A entrada de Hugo Chaves no teatro político peruano pôs sobre a mesa da campanha eleitoral um tema que nunca se tinha posto, o do Peru ter de escolher entre Chaves e o seu próprio destino. O efeito internacional na região seria completamente distinta no futuro consoante fosse o candidato escolhido. O futuro com o Presidente eleito é o de procurar uma segunda oportunidade, com Humala seria um aparente não futuro na mão do mestiço do Caribe, e seu último pupilo. Neste contexto, pela primeira vez, surge uma voz afinada com eco andino e afiada à esquerda, que se atreve a levantar contra o ex pára-quedista de boina vermelha. Por incrível que pareça, Alan Garcia, que era o favorito indiscutível e Atila do Peru de ontem (1985-1990), acaba por se converter mesmo contra a sua vontade no homem que talvez ponha um freio às dentadas territoriais de Hugo Chaves. Pela sua intervenção nas eleições presidenciais peruanas e que por pouco Alan Garcia perde, o Brasil, Chile, Uruguai e até a Argentina, estariam agradecidos por fazer por eles o trabalho sujo. O mais interessado de todos seria o Presidente do Brasil, surpreendido com o Presidente da Argentina, atulhado de que o Presidente da Venezuela monopolize a liderança da região. Considera-o experiente em remover os cortiços alheios. O verdadeiro interesse de Hugo Chaves não é tomar as rédeas da América do Sul que é uma utopia. O seu objectivo determinante depois de retirar a Venezuela da Comunidade Andina, é conseguir uma hegemonia à sua medida dentro desse bloco, ter a Bolívia como aliada, mas procura novos sócios como o Peru e o Equador. Desse modo, bloquearia o governo de direita e pró americano do Presidente da Colômbia Álvaro Uribe.
Neste cenário pode pensar-se como hipótese que o motivo que impele Alan Garcia, com um governo que deixou o Peru na ruína económica, social, política e moral, é levá-lo a esquecer-se do Presidente do Brasil para fazer uma frente comum contra Hugo Chaves e concentrar os seus esforços em reescrever a sua história como novo líder. Tendo em conta a debilidade do Presidente do Brasil, a falta de reflexos que se atribui ao Presidente da Colômbia e ao populismo antiquado do Presidente da Argentina, Alan Garcia na Presidência do Peru, poderia ter um papel propulsor regional da economia de mercado, salvando a América do Sul das garras do aventureiro venezuelano. Que poderia ter acontecido se o eleitorado tivesse quebrado todos os prognósticos? Pisada a estatística das sondagens que aconteceria se Humala ganhasse as eleições? Seria o confronto com os Estados Unidos e a Europa. Para além disso, passaria riscos de tensão militar para a América do Sul pondo o Peru no epicentro de qualquer conflito bélico. A preocupação de que Peru se convertesse numa colónia da Venezuela era uma hipótese em que passaria a ser um outro anexo militar do chavismo. O Peru, uma província submetida ao Reino Caribenho do Supremo Protector Chaves? Não tendo o Peru sido súbdito da União Soviética, quando muitos tentaram no passado, não se via a ser hoje parte de um reino petrolífero de pacotilha da actual Venezuela saudita? Apesar de derrotado nas urnas Humala continuará a ser um rival temível para Alan Garcia. Com um terço do Congresso, uma efectiva implantação nas zonas mais pobres e um discurso de confronto que lembra o de Hugo Chaves ou Evo Morales, o líder nacionalista pode fazer a vida impossível ao governo.
Ollanta Humala, participou na luta contra subversiva e em conflitos bilaterais. Sublevou-se contra o Governo de Fujimori a 29 de Outubro de 2000, na oposição à corrupção do regime de Fujimori – Montesinos. Foi reintegrado ao Exército depois de uma amnistia aprovada pelo Congresso por via da pressão popular. Foi agregado militar em França e na Coreia do Sul, mas não deixou de lutar contra o Alto Comando corrupto que subsistia nas Forças Armadas, denunciando os oficiais que tinham assinado o acto de sujeição de Fujimori. Foi convidado a retirar-se das Forças Armadas, dada a renovação de quadros ainda que não fosse por motivo da sua idade e patente no Exército. Com a esposa fundou o Partido Nacionalista Peruano, que em Março de 2005, conseguiram uma votação superior a 30%, na primeira volta das eleições e parecem resignados à derrota depois de ouvir as primeiras palavras da última entrevista do candidato que não importa quem ganhe, o Peru tem futuro. Será que o Presidente eleito, político aprista, de passado político indigno, está destinado a dirigir um bloco capaz de defrontar Hugo Chaves?