JORGE RODRIGUES SIMAO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A insensatez da França

“Seuls les ultranationalistes ont eu, 12 octobre, le loisir de s'indigner à la fois du vote du Parlement français, qui a proposé de faire un crime du déni du génocide arménien de 1915, et de l'attribution, le même jour, du prix Nobel de littérature à l'écrivain turc Orhan Pamuk, qu'ils considèrent comme un traître» parce qu'il fait partie des Turcs qui reconnaissent publiquement ce génocide.”

Sophie Shihab

 

Os deputados franceses há cerca de quinze dias levaram a debate, uma das mais polémicas propostas de lei que há memória num governo ocidental, nos últimos cinquenta anos, e que propõe sancionar penalmente a negação do genocídio arménio pelos turcos otomanos na I Guerra Mundial.

A iniciativa legislativa provocou tensões diplomáticas com o governo turco. Apresentada pela oposição socialista, a proposta de lei, que prevê condenar com uma pena, que tem como limite máximo um ano de prisão e 45000 euros de multa, a quem negar o primeiro genocídio do século XX.

O debate acabou por ser favorável à aceitação da proposta de lei, com 106 votos a favor e 19 contra.

A adopção deste texto, equipara penalmente a negação do genocídio arménio com a do extermínio judeu pelos nazis na II Guerra Mundial, foi aclamada com uma salva de aplausos pelos deputados e público presente.

Recorde-se que a Turquia, a 18 de Janeiro de 2001, expressou a sua indignação pela aprovação naquele tempo, pela Assembleia Nacional francesa de um diploma sobre o genocídio arménio praticado pelos turcos, e que o governo turco recusou energicamente em resposta à proposta de lei, pela qual a França reconhecia publicamente o genocídio arménio de 1915, e o imputava aos turcos.

O documento de indignação turco, afirmava que a Assembleia Nacional da França tinha cometido um grave erro perante a história e a humanidade aprovando a proposta de lei sobre o genocídio arménio e que as relações turco-francas seriam grave e permanentemente prejudicadas por tal motivo.

O Presidente do Parlamento turco, na altura, pediu ao governo que reagisse imediatamente e assegurou que a Câmara o apoiaria, na decisão que tomasse contra a aprovação da lei pela Assembleia Nacional da França.

O Primeiro-ministro turco, de então, solicitou ao Primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, e ao Presidente Jacques Chirac, que recorressem ao Supremo Tribunal acerca da legalidade de tal diploma.

Recorde-se que o Parlamento francês é bicameral constituído pelo Senado (Sénat), eleito de forma indirecta e pela Assembleia Nacional (Assemblée Nationale), eleita através do voto popular.

Acerca dessa iniciativa, o então Primeiro-ministro turco tinha advertido a França, que a ser promulgada a lei, desataria uma grave crise nas relações entre a Turquia e a França.

Era um erro grave julgar e fazer uso da história em benefício político. As consequências da entrada em vigor da lei, podiam trazer turbulências às relações entre ambos os países, e explodiram quando publicamente foi revelado que a França poderia ser excluída de um negócio de armas turco, perdendo milhões de euros de lucros.

Os arménios defendem que 1500000 pessoas morreram nas chacinas perpetradas pelos turcos entre 1915 e 1917, enquanto a Turquia afirmava entre 250000 a 500000 mortos, negando sempre que se tratasse de genocídio.

Historiadores turcos asseguraram, que as cifras de mortos apresentadas pelos arménios são exageradas, e que estes foram transferidos dos seus locais na zona Oriental da Anatólia, quando iniciaram a luta armada por uma nação independente, enquanto o Império Otomano lutava em várias frentes durante a I Guerra Mundial.

Certo é que a França faz entrar a lei em vigor, e a Turquia a 23 de Janeiro de 2001, corta relações comerciais com a França, retomadas muito mais tarde.

O texto agora aprovado terá que continuar a sua tramitação jurídico-constitucional subindo ao Senado para aprovação e voltando de novo à Assembleia Nacional. O Presidente do Parlamento turco, afirmou que a aprovação desta lei é vergonhosa e que se trata de um acto hostil contra o seu país, não a podendo aceitar, pois muitos turcos desejam ir a França explicar que tal genocídio arménio nunca existiu.

A aprovação desta lei criará uma nova tensão nas relações entre os dois países, à semelhança do acontecido em 2001. As relações franco-turcas, têm uma longa história e foram desenvolvidas com cautela, sofreram um duro golpe devido à acção irresponsável de alguns políticos franceses, que não foram capazes de medir as consequências a longo prazo das suas políticas.

A França converter-se-á num país que pune as pessoas por expressar as suas ideias. A comunidade arménia ao defender o genocídio, exige igualmente, que os crimes sejam reconhecidos internacionalmente como tal.

A Turquia, precisou que 300000 arménios, e outros tantos turcos, morreram durante a guerra civil ocorrida no Leste da Anatólia quando os arménios se revoltaram a pedir a independência com o apoio do exército russo nos últimos anos do Império Otomano, predecessor da Turquia.

A defesa turca não corresponde à verdade, uma vez que o povo arménio no período entre o segundo e o primeiro milénio A.C.

detinha extensas zonas geográficas na Europa, a confrontar com a Ásia e África. Territórios esses que foram invadidos e conquistados por outros povos, e mais tarde entre potências rivais em conflito como a Rússia, Pérsia e o Império Otomano turco.

As rivalidades produziram no século XIX, a divisão da Arménia, em Oriental sob tutela da Rússia e Ocidental sob dominação dos otomanos turcos.

Na segunda metade do século XIX, os turcos levaram a cabo uma política brutal de violência desmedida contra os arménios, que culminou com o primeiro genocídio, de que resultou a chacina de mais de 300000 arménios, e da destruição de centenas de cidades e aldeias pelos turcos entre 1894 e 1896.

A Conferência de Berlim, nada resolve sobre este assunto, e os arménios são deportados para os desertos da Anatólia, onde se produziu a segunda chacina, de que os franceses culpam actualmente os turcos.

Cerca de 800000 turcos da Arménia Ocidental espalham-se pelo mundo.

Entre 1920 e 1990 a Arménia Oriental passa a ser uma das quinze Repúblicas Socialistas da ex-URSS.

A 23 de Agosto de 1990, declara a independência, surgindo a III República da Arménia, com o nome de República Soviética Socialista da Arménia, renomeada mais tarde como República da Arménia.

A decisão francesa, de apresentar este diploma, de iniciativa dos socialistas franceses, como tinha sido anteriormente, tem forte cariz eleitoral, dada a geral negativa do povo francês à entrada da Turquia na UE, e o objectivo é conquistar a poucos meses das eleições presidenciais, o voto no partido socialista francês.

A estratégia é muito má. Existem outras entidades com maior legitimidade para julgar o povo turco. Além de não beneficiar a França e os políticos, abre uma crise institucional na UE, e uma interpretação política e jurídica da história que pode criar inumeráveis diferenças políticas, culturais, religiosas e sociais, entre os diversos povos da Europa e do Mediterrâneo, sem contribuir para reparar ou consolar nenhum.

Algumas questões podemos levantar à França, arvorada em juiz da história, se foi mais dramática a sorte do povo arménio que a do povo curdo, ainda disperso, se não perseguido, num território de 550000 quilómetros, dividido entre quatro Estados soberanos, como a Turquia, Irão, Iraque e Síria, pouco sensíveis a essa tragédia, que deixa indiferentes as elites ocidentais? Que acontecerá no Norte de África, se um dia, não muito distante, os cerca de 20 a 22 milhões de berberes argelinos, líbios, marroquinos, mauritanos, egípcios e nigerianos decidirem proclamar a sua independência e criar um Estado comum, denunciando a milenar opressão de cristãos, muçulmanos, impérios coloniais, etc?

Que acontecerá nos Balcãs, se não houver protecção armada da NATO, e a saída dissuasória das suas forças? Como julgará a França, a intervenção militar do exército russo na Chechénia, denunciada como genocida por numerosas organizações humanitárias?

É mais visível e trágico o sangue arménio derramado na Turquia, do que o sangue checheno derramado em Grozni, a cidade que, com Sarajevo, inspirou historiadores e linguistas acerca do final da destruição do conceito de cidade? Quantas ofensas de sangue, com propósitos de extermínio são possíveis contabilizar na história da Europa durante o século passado? São as vítimas de Estaline, menos numerosas e menos dignas de recordação do que as vítimas de Hitler?

É necessário calar eternamente, a actividade suja que faziam alguns comunistas em Buchenwald, por conta dos nazis, para salvar a sua vida e a dos seus companheiros de viagem? A interpretação e juízo político da história, com leis e decretos, sempre correram e correrão o risco de precipitar novas e insondáveis tragédias.

No caso presente, a legislação que é sempre acto de política, corre o risco de agravar todos os problemas políticos e institucionais que paralisam a construção política da Europa. O “Não” da França ao projecto de Tratado Constitucional Europeu, afundou a UE num pântano de incertezas.

O projecto de proposta de lei condenando, quem se atrever a negar o genocídio arménio, divide toda Europa. Ao tentar aliviar o pesar da recordação, e chamar a atenção para um povo mártir, corre a França o sério risco, de reabrir muitos túmulos, onde os restos de incontáveis vítimas esperam em vão o dia do Juízo Final.

Ameaçam-nos, os fantasmas de incontáveis guerras civis europeias e outras guerras políticas criadas por tresloucados e insensatos homens mascarados de políticos.

Jorge Rodrigues Simão, in “MacauHoje”, 27.10.2006/
/“Le Monde”, com alterações e bibliografia(3), 29.10.2006
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